domingo, 10 de maio de 2009

DESIDERO ERGO SUM

PULSO
A espera e a corrida
Ardente em seu pressagio
Andarilho dos impulsos
frêmitos
dentro
escancarados
O impávido colosso nos teus ossos
Me encontro nas terras vermelhas de sua carne

Em pulsos malditos
Em tantas ternuras
Dissidente de um remendo de corpos costurados

Trêmulos na superfície do instante
Pulsos que se partem
Veias correndo multiplicando os vasos
Liquido caminho bordô
Verdades consumidas em mentiras que bordo
Meu sangue escorrendo em outras veias
Tantos corpos a sangrar
Quantas veias a seguir
Cura que é a loucura em terras não habitadas
Insisto no vale de nuvens dissolvidas
Vivendo o dia em noites mortas
No instante desfaço
Percorro em cursos de rios vermelhos
Língua sangue cheiros
A desbravar outros pulsos
Parto
Corto
Sangro


DOBRAS
Descubra as dobras do meu corpo
Permito que investigue meus traços
A linha que sai do pescoço
e que corre lateralmente pelo braço
Ou a linha que vai das costelas e cai sobre a coxa
contornando a minha cintura
Contornos que se esvaecem
em linhas que se dissolvem
Como pontos em reticencias
Faz vacilar meu eu
A minha nuca ao seu umbigo
O meu mamilo à sua boca
Uma unica linha
Já estamos emaranhados
Envolvidos por uma trama de linhas
que logo se dissolvem em reticencias
E tornam insustentaveis qualquer palavra sobre uma linha
Permito que se dobre sobre o meu corpo
E me cubra com sua perna e costas
Descubra nossas linhas
Experiemente desenha-las com os fios de meu cabelo
Ainda que se tracem tortas
Ou apenas imagine o percurso
como ela pode unir nossos figados ou perfurar o seu olho

e atravessar meu peito, á depender da disposição dos corpos
Me cubra com o seu corpo novamente
Dobre-se em mim
A sermos um desdobramento de um dobrar-se no outro
Deslocando meu eu
Sendo nós
Não sendo ninguém
Sendo desejo
o que se põe na dobra entre eu e você



ROCHA EMBRIAGADA
Na dureza de uma pedra embriagada poros são escancarados
Grutas são desveladas
em rochas perfuradas pelo roçar de águas ásperas
Inebriadas pelo simples prazer de molhar
Na imundice do encontro a água impura lava e deixa bêbado o rochedo
Todavia não há água
Talvez um esgoto vazando por frestas que rompem como linhas de fuga incansáveis
Escorrendo leite e sangue no peito de uma pedra parida
Sangrando as palavras alheias e as chagas de um mundo orgástico
Não há água porque estamos no deserto
Há apenas a miragem de um oásis imundo
Á espreita de um animal que deleite-se ao saciar sua sede
E assim possa devolver a pureza a uma água de esgoto
O sangue matando a sede de uma garganta sem traquéia
Estamos no deserto
Não há água nem sangue
Não há pedras nem esgoto
Há somente o desejo
Sentido na carne do vento que move as areias do deserto

CÂMERA TURVA
Apruma-te e perceba o quanto o tempo vai passando
Sem que você não me veja em dentros intimamente
Eu a espera de um retoque seu
Ou de algo que o valha
Desapercebidamente vou sumindo de sua vida
E quanto menos espera
parto
Sem deixar rastro
Nem retrato em nenhum fundo de gaveta
Só restos de imagens partidas
Produzidas por encontros apartados
Breve te desencontro como uma fotografia velha
E quero ver-te como Imagem obliterada
De um filme não revelado de nossa câmera omissa
Lacuna em meio ao silencio do cinematógrafo

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